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Por que o Raï é revolucionário

Recém-chegada em São Paulo no verão de 2014, eu ouvia raï no talo. Lembro do balanço do ônibus ao entrar na Avenida Dr. Arnaldo sentido bairro com Raba Raba fluindo dos meus fones de ouvido. O single do cantor argelino Cheb Khaled foi lançado em 1999 pela Universal. Querendo desafiar o jargão de que "em São Paulo tem de tudo", fui até a FNAC da Avenida Paulista procurando CDs de Khaled. "Moça, ele estourou no começo dos anos 2000, agora vai ser difícil você achar", disse o vendedor.


Ele tinha razão. Cheb Khaled virou febre no Brasil por conta da novela Vila Madalena (1999), da Rede Globo com o hit El Arbi. O argelino interpretou a canção no palco do programa do Faustão, na mesma emissora que, no ano seguinte, lançaria a novela O Clone. Tanto as cenas dO Clone quanto a apresentação de Khaled no Faustão causam certa estranheza para quem conhece o raï ou a cultura árabe de maneira geral.






No teledrama, a jovem marroquina Jade tem de escolher entre o amor por um brasileiro e a tradição de seu país. Mas a trama é regada de falhas culturais, como os dialetos libanês e

egípcio sendo usados no Marrocos, as cenas de dança do ventre hiper sexualizadas e

a criação de um estereótipo submisso da mulher árabe. A novela moveu o mercado

de dança do ventre no Brasil, que até então era pequeno e específico, existente em

clubes árabes na cidade de São Paulo.


O raï é mais do que a mera trilha sonora da miscelânea da novela. É um gênero musical que tem suas raízes no norte da África, que fez sucesso na década de 1980 entre Argélia e França. Da relação entre os dois países — às vezes não tão pacífica, tendo em vista a guerra de independência argelina entre 1954 e 1962 — a música foi um bom fruto. Cheb, no árabe magrebino, que dizer "menino". Assim são pre-nominados muitos dos cantores de raï: Khaled, Mami, Hasni. "Hoje ele não é mais cheb, não é mais criança", afirmou a mãe do cantor em 1993 a documentaristas franceses.





A região norte da África tem em seus ingredientes sonoros as batidas da cultura negra local (gnawa), a flauta árabe e o dialeto particular — uma variação oral do árabe padrão — podendo incluir também línguas do povo nativo (amazigh).


Mas o raï é revolucionário pela solidariedade internacional que gerou. Fez os jovens de Paris dançarem a seu ritmo nas discotecas dos anos 80 e 90. De maneira geral, fez a França invejar a cultura contagiante da ex-colônia Argélia. Deu orgulho aos vizinhos marroquinos, apesar da disputa até hoje pelo território do Saara Ocidental. E fez o árabe oriental enxergar o árabe norte africano pelo viés da cultura pop. Apesar de um libanês certamente não entender o que diz o dialeto argelino, cantado por um cheb.



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