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Mulheres são mais impactadas por mudanças climáticas

Atualizado: 18 de Jul de 2019

Empoderamento e liderança. Segundo Patrícia Espinosa, secretária executiva da UNFCCC (Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), esses são os pilares dos projetos das Nações Unidas que têm como objetivo a igualdade de gênero. Tocar na questão da mulher no discurso de abertura da COP23 (Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU), realizada em novembro de 2017 na Alemanha, mostra a urgência do assunto.


Afinal, mulheres têm 14 vezes mais chances de morrer em desastres causados por mudanças climáticas do que os homens de suas mesmas comunidades, como mostra o Relatório da ONU Gênero e Redução de Risco de Desastres, de 2013. No contexto dos impactos, desigualdades são reforçadas pelos papéis de gênero. O papel feminino, constituído sobre tarefas como o cuidado do lar, a preparação das refeições e educação dos filhos gera uma pressão sobre a mulher que tem de lidar com desafios que as mudanças climáticas apresentam, como a escassez de recursos e catástrofes.



Abertura da premiação de projetos inovadores contra as mudanças climáticas criados por mulheres na COP23, Alemanha

O problema da desigualdade de gênero se estabelece pela invisibilidade do trabalho feminino nas sociedades. Essas atividades familiares e comunitárias são apagadas da narrativa de produtividade econômica dos países por não serem remuneradas. A falta de reconhecimento é numérica: 70% da população mais pobre do mundo é formada por mulheres, segundo a Observação de Gênero e Meio Ambiente de 2016 realizado pelo UNEP (Programa da ONU para o Meio Ambiente).


Além das responsabilidades sociais, a mulher representa o agente transmissor dos conhecimentos ancestrais de seu grupo. “Somos dupla sementes. Semeamos a vida e a sabedoria do povo quéchua”, explicou metaforicamente Rosalía Yampis Agkuash, diretora do programa para mulheres da AIDESEP (Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana). Agkuash tem consciência de que as ações de adaptação que realiza junto de suas companheiras — a proteção de fontes de água e agricultura sustentável — têm importância global. “Quando ajudamos a Amazônia, pulmão do mundo, fazemos com que todo o planeta respire um ar puro e fresco”, afirmou Agkuash.


Discurso de Rosalía Yampis Agkuash, diretora da Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana, reforçou o papel feminino na recuperação da Amazônia

Os compromissos das mulheres com o clima variam não somente de acordo com os biomas em que estão inseridas, mas também pela posição que ocupam na divisão geopolítica entre norte e sul. Christine Bruneau é presidente e fundadora da ONG Mulheres de Amanhã, com sede em Paris e atuação em países da África Subsaariana. O grupo age desde 1996 como união feminista internacional, produzindo recomendações e reflexões estratégicas científicas de meio ambiente. “A África tem uma juventude inovadora, com muitos recursos e criatividade. Não são outros continentes responsáveis por prover as soluções”, disse Bruneau. Ela não se esquece, no entanto, da posição francesa no desenvolvimento de energias renováveis – o país fixou a meta de tornar 40% de suas fontes de energia renováveis pela Agenda 2030.



Christine Bruneau, presidente e fundadora da ONG Mulheres de Amanhã


Com diferentes recortes de realidade, mulheres tomam a palavra e entendem seus lugares na discussão: quais escolhas farão para responder às degradações que geramos, enquanto sociedade, na natureza?



Lugar de Fala


Além de uma reunião política entre as nações, a Conferência é a oportunidade anual aos cidadãos do mundo inteiro de compartilhar suas respostas às mudanças climáticas. Para as mulheres, isso é ainda mais representativo, pois além de lutar contra os impasses ambientais, devem fazê-lo superando as limitações que a hierarquia de gênero impõe. “As obrigações femininas são as mesmas pelo mundo. Na maioria dos países a mulher tem o papel de cuidadora, um trabalho não-remunerado”, pontuou Mereseini Vuniwaqa, ministra de Segurança Social, de Mulheres e Redução da Pobreza da República de Fiji.


Cada continente apresenta diferentes reações da natureza aos danos climáticos causados pela humanidade, que desencadeiam desastres sociais. Fiji é um arquipélago localizado na Oceania que tem sentido os impactos pelo aumento do nível do mar e por fortes ciclones. Em fevereiro de 2016, o país foi atingido pelo fenômeno na categoria 5, forçando adaptações na infraestrutura e na vida em comunidade. O aumento do nível do mar fez com que evacuações em vilarejos litorâneos fossem necessárias para a sobrevivência dos habitantes. Vuniwaqa contou que quando os ciclones atingem o arquipélago, as fijianas têm de abrigar as crianças e idosos, além de viajar para buscar água. “Novamente problemas de segurança entram em jogo. Além disso, há mais mulheres no setor hospitalar e quando os ciclones vêm, elas são sobrecarregadas.”

Confira a entrevista com a ministra de Segurança Social, Mulheres e Redução da Pobreza da República de Fiji, Mereseini Vuniwaqa:





Países insulares têm uma relação difícil com as intempéries. Assim como Fiji, a Indonésia vive os efeitos das transformações metereologicamente, em deslizamentos de terra, enchentes e tempestades. O último desastre significativo vivido pela população indonésia foi o deslizamento de Karangkobar, Jacarta Central, em 2014. A devastação teve uma amplitude de 1,2 quilômetro e arrasou as moradias da localidade em menos de 5 minutos, segundo o documento Administração de Emergência do Deslizamento de Banjarnegara, publicado em 2015 pela APEC (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico).


Em episódios como esses, mulheres são as protagonistas. Elas, quando unidas, dão origem a projetos capazes de reverter danos e criar laços de fortalecimento feminino. Exemplo disso é Anastasia Maylinda, presente na Conferência para representar a organização em que trabalha na Indonésia, a YAKKUM (Unidade de Emergência), como gerente de Informação e Comunicação. O grupo teve o pontapé inicial dado por mulheres e se formou a partir da necessidade de responder ao desflorestamento de sua região, que gera falta de água e deslizamentos. “Ainda existe a mentalidade de que você só deve fazer o trabalho doméstico. Mas sempre que temos reuniões nas comunidades, tentamos conscientizar cada vez mais pessoas”, pontuou Maylinda.


Enquanto isso, na África Subsaariana, as mulheres também se destacam na luta de adaptação e mitigação da mudança no clima. Francine Roboty, representante da ROSCEVAC (Rede da Sociedade Civil pela Economia Verde na África Central), mostra fronteiras duramente definidas. “O homem caça, a mulher procura a lenha e cultiva.” E, quando elas têm o próprio ganho, investem 90% da quantia na família, como mostra o relatório Soluções Climáticas com Justiça de Gênero da WGC (Constituição de Mulheres e Gênero da ONU) de 2017.


Mulheres indígenas da América do Sul encaram o desafio de resistir às decisões políticas e econômicas dos Estados em que estão inseridas. Mesmo tratados mundiais como o Acordo de Paris não garantem políticas sensíveis ao recorte de gênero, alertado pela publicação Soluções Climáticas com Justiça de Gênero da WGC (Constituição de Mulheres e Gênero da ONU) de 2017.

As líderes dos povos nativos americanos vivem essa realidade de conflito. “Não podemos mais olhar para a natureza como fonte de sucesso econômico”, expressou Wilma Mendoza Miro, coordenadora da COICA (Organizações Indígenas da Bacia Amazônica).



Wilma Mendoza Miro, coordenadora das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica, defende a ideia da redução da exploração de recursos naturais

O panorama ilustrado pela representante boliviana do povo moseten é de que as políticas de desenvolvimento sustentável não são postas em prática pelas nações latinas por ainda recorrerem a medidas agressivas para a redução da pobreza. Construção de estradas, extração de ouro, exploração de hidrocarbonetos, o agronegócio e a plantação de soja compõem o quadro e têm como meio o desflorestamento. Tal posicionamento contradiz os Objetivos do Desenvolvimento Sutentável, firmado em 2015 por 193 nações. O não cumprimento das metas sustentáveis na agricultura são os pontos mais graves nesse contexto.



Mentes de Líder


Os passos iniciais rumo à igualdade de gênero são a extinção do casamento infantil, a garantia da educação formal a meninas, a preservação da saúde adolescente e o fim da violência de gênero em situações de emergência. É o que indica o Plano de Ação de Gênero das Nações Unidas de 2015. Mas a dificuldade dessa variedade de metas se concentra em um único fator: a mudança de mentalidade. “Estou de acordo com o slogan da UNESCO: é fácil mudar o clima, o problema é mudar as mentes”, diz sorrindo Salamata Fofana, apontando para um grande painel colorido que incita a reflexão. Fofana é ex-ministra de Moradia e Urbanismo da República do Mali e presidente da AFIMA (Associação de Mulheres Engenheiras do Mali), responsável por promover o acesso feminino a energias renováveis na vida cotidiana. Um forno solar foi criado pela organização, gerando uma verdadeira revolução nas comunidades em que a novidade foi distribuída.



“Estou de acordo com o slogan da UNESCO: é fácil mudar o clima, o problema é mudar as mentes”, disse Salamata Fofana, ex-ministra de Moradia e Urbanismo da República do Mali

“As energias domésticas, meio de trabalho das mulheres, são a lenha e o carvão em 90% das vezes”, explica a ex-ministra, dando um panorama da realidade africana. O uso desse meio energético está intimamente ligado à desertificação. Para ela, o primeiro passo na luta contra os impactos ambientais é sensibilizar as mulheres, antes mesmo de oferecer novas tecnologias energéticas. “Quando dizemos ‘a temperatura vai aumentar de 2 a 3 graus’ as donas de casa não entendem isso”. Sensibilizar é capacitar as mulheres a enxergarem os efeitos produzidos pelas ações cotidianas.


A falta de representação feminina e a maneira como se educam os jovens são os motivos pelos quais a desigualdade de gênero continua sendo um problema humanitário. Fofana acredita que esse quadro mudará quando meninas forem incentivadas a serem cientistas e as lideranças femininas já existentes nos campos políticos e sociais promovam a ascensão de mais mulheres aos altos cargos. “Ainda são os homens que estão no comando. Quando se há decisões a tomar e as mulheres estão ausentes, você acha que vão nos favorecer?”


Os dados mostram que não. Na COP23, a formação das delegações teve, na média, 62% de homens contra 38% de mulheres, como conta o Balanço de Gênero da organização científica Carbon Brief. A falta de representação no cenário político afeta a tomada de decisões, que, por consequência, não olham para as mulheres nas singularidades de suas vivências.



"Principais desafios: o Acordo de Paris não garante uma transferência de tecnologia sensível ao gênero, segura e ecologicamente sustentável; As mulheres são menos representadas nos processos de desenvolvimento tecnológico; A pouca vontade política de integrar gênero na tecnologia destrói a eficácia das políticas climáticas."


Mendoza, líder indígena do povo moseten, mostra que o acesso à informação é a maior forma de combate ao capitalismo desenfreado que destrói a Amazônia. “É trabalhoso conhecer nossos direitos, mas eles significam a conservação do nosso território.” As mulheres de seu povo têm como princípio o fato de não precisarem mal tratar nossa terra para obterem bons resultados de produção, já que têm consciência de que a natureza é cíclica e fonte de alimento: se geramos poluição, não podemos escapar de consumi-la.


Maylinda, na Indonésia, tem um posicionamento muito parecido ao de Mendoza. O comportamento feminino é resultado das construções sociais às quais são submetidas. A falta de autoconfiança se materializa no silenciamento feminino. Assim, gerente de comunicação do projeto YAKKUM dá treinamentos de oratória dentro das comunidades rurais. “Elas tinham vergonha de falar em público. Mas recentemente, uma das membras do nosso projeto foi convidada pelo Ministério de Empoderamento Feminino da Indonésia para dar uma palestra e ela conseguiu! Construir confiança é importante para as mulheres para que elas se comuniquem com públicos maiores.” É pela mudança de mentalidade que as transformações acontecem. No gênero e no clima.



Essa reportagem foi realizada por mim, Letícia Sé, como repórter enviada especial a Conferência Climática das Nações Unidas em 2017 pela Fundação Cásper Líbero. A edição de vídeo da entrevista com a ministra Mereseini Vuniwaqa foi feita por Gisele Sartini.

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