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Filme argelino abre Mostra de Cinema Árabe em São Paulo

Os Afortunados causa estranheza aos brasileiros que não conhecem o mundo árabe de perto



Depois da exibição do filme argelino Os Afortunados (Sofia Djama, 2017) no CineSesc nesta quinta-feira (8), alguns casais saíram da sala do cinema disparando comentários. "Mostrar os jovens fumando tanta maconha foi exagero" e "Não entendi o enredo" foram alguns deles.


A 14ª Mostra de Cinema Mundo Árabe, promovida pelo Instituto de Cultura Árabe em São Paulo, deve saber da dificuldade do diálogo entre brasileiros e árabes por meio da sétima arte. Dificuldade essa que se dá talvez pelo contato estereotipado que brasileiros tiveram com a comunidade árabe ao longo da história do país – afinal, o Brasil chama por “turco” há muitas décadas os migrantes que vêm do Oriente. A Mostra é um evento anual de grande importância e qualidade por enriquecer o repertório brasileiro sobre o mundo árabe.


O consumo cultural sobre mundo árabe no Brasil é guiado por representações oferecidas em novelas, ou no máximo, por pacotes turísticos com destinos famosos. Tais contatos são superficiais em termos de compreensão. As sociedades árabes contemporâneas carregam consigo um passado de tradições e um presente de jovens nascidos em uma era digital como todos do mundo inteiro, com o acréscimo das especificidades locais.


Outras dificuldades de compreensão são mais técnicas: o filme não foi legendado em português, sendo projetada a tradução abaixo da tela principal. A legendagem falhou em alguns momentos: faltou sincronismo em diversas cenas e alguns nomes árabes foram adjetivados no gênero errado pela tradução. Além disso, algumas expressões específicas do léxico árabe-muçulmano não fazem tanto sentido na tradução literal ao português. É o caso da frase “Allah yerhamek alualidin” sendo traduzida, literalmente, como “Deus tenha misericórdia de seus pais”.


Depois da exibição, foi aberta uma roda de conversa entre o público e a diretora, Sofia Djama. A tradução da intérprete de língua francesa durante o bate papo também estava atrapalhada – por exemplo, quando a diretora falou sobre "islamistas conservadores" na Argélia contemporânea, a intérprete traduziu ao público como "Estado Islâmico", um erro grave.


Djama, pouco depois de começar o bate papo com o público, resolveu tirar os sapatos de salto e ficar descalça. "Ela é uma mulher normal!", disse alguém rindo na plateia. Por que não seria?



Os Afortunados


Vencedor de prêmios internacionais (em Veneza, Namur, Montpellier, Genebra e Dubai), Os Afortunados se passa em 2008 e retrata choques de realidade e de consciência dentro da Argélia atual. O casal Amal (Nadia Kaci) e Samir (Sami Bouajila) discute sobre o futuro do filho adolescente, Fahim (Amine Lansari) e o debate conduz uma reflexão sobre cidadania. Enquanto Amal tenta estimular o filho a fazer faculdade na França, Samir insiste que o futuro de Fahim deve se desenrolar na Argélia.

Ao longo da trama, algumas cenas se destacam. Uma delas mostra uma discussão da família na rua, na qual um homem vestido com uma djleba (roupa tradicional do norte da África) intervém e diz a Samir para “controlar sua mulher”. Amal responde com rispidez, criticando a moral muçulmana do desconhecido.


O fato de os personagens centrais do filme se comunicarem em francês também é significativo. A distância do islã e da língua árabe mostra um posicionamento do casal no passado, durante a Guerra Civil Argelina (1991-2001). A família faz parte de uma certa elite argelina, que discorda do conservadorismo religioso. “Eu faço isso para irritar meus pais”, diz o personagem Fahim ao ouvir recitos islâmicos em volume alto dentro de seu quarto.


Nos encontros de Fahim com seus amigos, os cigarros de haxixe aparecem com frequência e propõem ao espectador uma reflexão sobre a convivência do islã com hábitos tidos como pecaminosos. Outra presença que marca essa oposição é a música – mais especificamente, o gênero musical taqwacore, o punk halal que serve de trilha sonora para o grupo de jovens.

Depois da exibição, a diretora Sofia Djama declarou que a importância do cinema argelino se dá justamente pela baixa valorização dessa arte no país. Djama descreve a Argélia contemporânea como um período “pós-traumático”, fazendo referência à Guerra Civil e à Primavera Árabe. A temática específica sobre a vida contemporânea argelina é presente em Os Afortunados junto com o tema geral: o conflito de gerações. “Eu me vejo na personagem de Amal, carrego o passado. A geração atual de argelinos vive o hoje”, concluiu Djama.




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