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Dia do Banho no Marrocos

Atualizado: 17 de Jul de 2019


Quando estava em Marraquexe, fiz três amigas: Samira, Fardáus e Zeinab. As duas primeiras são irmãs e Zeinab é filha de Samira. O melhor dia que passamos juntas foi aquele em que fomos ao banho.


Também não entendi bem quando ouvi-las dizer “vamos ao banho hoje”. Pela lógica marroquina, o que as pessoas fazem diariamente são duchas. Banhos são outra coisa.


Em alguns países do norte da África e do Oriente Médio, o Hammam é um hábito que acontece uma vez por semana. Antes de irmos, Fardáus me explicou como seria: “é uma sauna com três ambientes gradualmente quentes, em que vamos nos ensaboar, nos esfoliar e tirar nossa pele morta.” O patrão delas nos levou de carro até o bairro em que moram.


A paisagem é muito diferente do centro da cidade, a Medina, onde eu estava hospedada. Enquanto o centro era movimentado e cheio de lojas de souvenirs, o bairro residencial era calmo, com uma pequena feira de rua acontecendo por perto e crianças saindo da escola. Já eram cinco e meia da tarde.

Entrei no prédio em que elas moram. Não é muito diferente dos prédios de poucos andares que temos no Brasil: subimos os andares de escada, crianças brincavam no pátio térreo. A diferença maior é que em Marraquexe todas as construções têm a mesma cor alaranjada

— mesmo os edifícios residenciais, por dentro e por fora. Tomamos um chá na sala, enquanto eu notava que elas separavam baldes, shampoos e luvas esfoliantes. Finalmente, saímos para o banho.



O hammam era mais ou menos como esse. Todo azulejado, com bancos de plástico e baldes


A casa de Hammam ficava a apenas algumas quadras dali. Ela é dividida em duas partes que jamais se encontram: masculina e feminina. Chegamos, Fardáus pagou as entradas e compramos o sabão esfoliante no mesmo lugar. Tiramos nossas roupas no vestiário e fomos ao banho.


Realmente, existiam três ambientes com temperaturas graduais: quente, muito quente e super quente. As meninas quiseram ir direto à parte super quente e eu as acompanhei. Sentamo-nos em bancos de plástico que elas levaram e começamos a suar, a jogarmos água em nós mesmas e a nos ensaboarmos. Enquanto isso, eu pensava em como alguns minutos antes, muitas daquelas mulheres estavam completamente cobertas, com apenas o rosto e as mãos a mostra. E como nós mulheres somos parecidas mesmo em diferentes lugares do mundo. Nossas proximidades podem não ser geográficas ou religiosas, mas o fato de ser mulher nos une. Tive uma epifania de sororidade, de certa forma.


O lugar era um pouco assustador. Era completamente feito de azulejos brancos. Depois de um tempo, Samira pediu para que fossemos para a parte menos quente do Hammam. E foi aí que eu aprendi na pele que sensações são subjetivas, já que a sala inicial pareceu o lugar mais fresco do Universo naquela hora.



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