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A música árabe é diversa; entenda gêneros e regiões


Foto: Por Keteracel em Wikipédia em inglês, CC BY-SA 3.0

Infelizmente, no Brasil, temos pouco contato com a riqueza cultural árabe. Apesar de termos tido uma imigração interessante de sírios, libaneses e palestinos principalmente ao sudeste do país no último século, ainda não temos muito conhecimento cultural sobre o que acontece no norte da África e no Golfo, por exemplo.


As novelas que falam sobre comunidades árabes – como O Clone e Órfãos da Terra, ambas da TV Globo – erram por vezes em quesitos de precisão cultural, gerando mais desinformação. No Clone, por exemplo, lembro de cenas em que se falava em árabe egípcio, mas a novela se passava no Marrocos! Tudo isso denota um orientalismo: a criação de caricaturas com propósito colonial sobre o árabe. Essa representação imprecisa, ora exótica, ora ameaçadora, atrapalha o contato cultural.


Já que toquei no assunto de "árabe egípcio", algo importante de se saber ao conhecer o mundo árabe é que cada país tem um dialeto árabe diferente. Isso porque a arabização, expansão do islamismo e da língua árabe do Golfo a outras regiões, no século 7 d.C., ocorreu em diferentes ondas a cada local. Os nativos e outros povos que já viviam em cada lugar tiveram diferentes misturas entre sua cultura local e a língua árabe implementada.


Assim surgiu o mundo árabe que conhecemos hoje: existe a língua árabe padrão, chamada de fusha – ela é escrita, aprendida nas escolas e usadas em situações formais (como em documentos, no jornalismo e em cerimônias); por outro lado, há a língua árabe falada em cada país, chamada de "dialeto" (marroquino, egípcio, sírio, etc.).


Um texto muito bom sobre variedades do árabe em cada país é do doutor em língua árabe, Felipe Benjamin, no blog da Editora Tabla. A Tabla é especializada em literatura árabe e traduções diretas do do árabe ao português – algo inédito no mercado editorial brasileiro! Eu também sou redatora no blog da Tabla e espero que vocês acompanhem os textos que publico lá.


Tendo feito essa introdução, agora podemos falar de música árabe. Cada país árabe tem sua cultura, seus gêneros musicais, folclore e seu dialeto. A maior estudiosa de música e dança árabe no Brasil é Marcia Dib, brasileira de origem síria. Ela explica que a lógica da música árabe é modal, e não tonal, como a ocidental. Em seu livro "Música Árabe – expressividade e sutileza", baseado em uma intensa pesquisa acadêmica e pessoal, Dib nos ensina a entender as discussões sobre o que é música árabe.


Preparei essa lista com algumas regiões e suas músicas – bem longe de abarcar tudo que o mundo árabe oferece – e também uma playlist no Spotify com as referências que eu cito aqui. Confiram:

Magrebe Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia formam um bloco chamado de "Magrebe". São os países árabes mais perto do mundo ocidental. Esse contato, inclusive, foi uma união do século 8 até o 14 d.C., um período chamado de Al-Andaluz, quando o reino árabe do Marrocos detinha os territórios da Espanha e de Portugal. Daí surgiu o gênero musical árabe Andaluz. Uma das canções mais famosas escrita nesse período (é até hoje apreciada pelos árabes) se chama Lamma Bada Yatathana. Eu gosto muito desta versão, da cantora síria Lena Chamamyan e também desta versão poderosa com coral e orquestra.


A partir dos anos 1980, na Argélia, houve a explosão do gênero Raï. O estilo tem influências música tradicional local, como clássicos do cantor Dahmane el Harrachi (1926-1980) e pitadas eletrônicas da década de 80.


O cantor de Raï mais famoso é o Cheb Khaled. Inclusive, ele foi topo das paradas no Brasil na época da Novela O Clone com a música El Arbi. Outras músicas do Cheb Khaled mais famosas no mundo árabe famosas são Chebba e Waharane. Uma das bandas de raï mais famosas é o Raïna Raï.


Egito

O Egito tem a maior indústria cultural do mundo árabe. Os egípcios exportam para os outros países filmes, novelas, seriados e músicas. Isso bombou por volta dos anos 1940. E isso faz com que o árabe do Egito seja compreendido em todos os países. A cantora mais famosa do Egito e possivelmente de todo o mundo árabe foi Umm Kulthum, também grafada como Oum Kalsoum (1898-1975). Ela, assim como o cantor Abdel Halim Hafez, se apresentava em grandes teatros no Egito e cantava uma espécie de ópera. Eram músicas com mais de uma hora de duração.

Um ritmo folclórico do Egito, muito conhecido, é o Saidi (canção do vídeo se chama Luxor Baladna).


Líbano A cantora mais famosa do país, conhecida como A Voz do Líbano é a Fairouz. Ela é cristã, nasceu em 1935 e tem canções religiosas como Ya Um Allah ("Ó mãe de Deus", sobre Maria, mãe de Jesus) e também canções sobre a Guerra do Líbano e outras mais animadas.

Uma banda libanesa que tem feito sucesso pelo mundo árabe é a Mashrou Leila. Inclusive, já fui em um show deles no Sesc Pompeia há alguns anos! O som é bem interessante. Mas eles estão proibidos de tocar em alguns locais, como no Egito, porque os integrantes são abertamente LGBTs – e isso é crime no mundo árabe.


Marcel Khalife, nascido em 1950, é um intérprete muito importante do Líbano. Ele toca alaúde. Ele musicou muitos poemas do poeta palestino Mahmoud Darwish. Eu particularmente prefiro as músicas instrumentais dele, mas aqui está um exemplo de canção com voz baseada num poema palestino do Darwish.

Oumeima el Khalil, nascida em 1966, também é uma voz muito conhecida do Líbano e inclusive já fez parcerias com o Marcel Khalife. Aqui está uma canção muito bonita dela, só voz, chamada Asfour ("pássaro"). Síria Qudud Halabye é um gênero musical da cidade de Aleppo, na Síria. O cantor mais famoso desse estilo talvez seja o Sabah Fakhri, nascido em 1933. Acho bem incrível como mesmo em vídeos recentes dele a voz dele parece ter mudado muito pouco!


*Anexo: o Dabke

Você deve conhecer o dabke, aquela dança em que as pessoas dão as mãos e dançam com passos que envolvem batidas dos pés. O dabke é um gênero musical e de dança do Oriente Médio – Palestina, do Líbano e Síria. Aqui está o Mohamed Assaf, um cantor palestino que ficou famoso depois de participar do Arab Idol, cantando dabke.



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